Comentário sobre “Um ensaio analítico sobre o Molinismo” de Bruno Queiroz

Um dos maiores problemas que o Molinismo enfrenta aqui no Brasil é a sua má representação por parte dos seus opositores. Na maioria das vezes esses equívocos sobre o Molinismo não surgem de má fé, mas sim pela falta de material apropriado em língua portuguesa. Com isso é frequente que as pessoas busquem material já publicado em blogs e sites e acabe replicando visões incorretas sobre uma determinada doutrina (isso não acontece somente com o Molinismo). Nesses casos, cabe àqueles que são “adeptos” do Molinismo explicar com clareza sua visão e corrigir, quando necessário, quaisquer que sejam os equívocos existentes, e é isso que tentarei fazer aqui.

O artigo que eu irei comentar aqui pode se encontrado originalmente aqui:

http://brunosunkey.blogspot.com.br/2016/12/um-ensaio-analitico-do-molinismo_30.html

Desde já deixo claro que não é uma refutação propriamente dita, mas sim uma tentativa de expor de maneira mais apropriada a visão Molinista diante de algumas objeções que são levantadas com frequência.

Portanto, para um molinista, a providência divina depende, ou seja, está baseada, na Onisciência, de forma que o conhecimento de Deus é logicamente anterior ao seu decreto.

Esse é o primeiro ponto a ser discutido. Dificilmente um Molinista afirmaria que a providência divina depende de alguma coisa. O que o Molinismo afirma é que Deus escolheu exercer sua providência através de sua Onisciência. O Molinismo, conforme difundido hoje por teólogos como Alvin Plantinga, William Lane Craig, Kenneth Keathley, Thomas P. Flint e Kirk Macgregor é a doutrina básica sobre a onisciência de Deus que afirma dois pilares: (1) Deus, desde a eternidade, possui Conhecimento Médio; (2) Seres humanos foram criados por Deus com Liberdade Libertária (com ressalvas, chamada de Livre-Arbítrio por alguns). Esses dois pilares formam o que chamamos de “Molinismo Puro e Simples” (Mere Molinism, em inglês). Explicando os dois pilares

(1) Deus, desde a eternidade, possui Conhecimento Médio.

Conhecimento Médio, na linguagem Molinista, significa o conhecimento que Deus possui das contrafactuais de criaturas livres, ou seja, da maneira que qualquer ser agiria livremente em qualquer conjunto de circunstâncias. Deus, desde a eternidade, sabe como cada ser humano que ele resolvesse criar agiria livremente caso possuísse liberdade libertária e fosse colocado em um determinada situação. Sobre isso é importante ressaltar que as circunstâncias não são o fator determinante sobre a escolha da criatura, ao invés disso elas são o fator que limita a possibilidade de escolha da criatura. Ou seja, a criatura somente pode escolher entre as opções que as circunstâncias permitem. Como em um restaurante, você só pode escolher aquilo que está no menu, entretanto, dentro do que existe no menu, a escolha do que comer é inteiramente sua (e não de quem criou o menu).

(2) Seres humanos foram criados por Deus com Liberdade Libertária.

Liberdade Libertária não é a capacidade da criatura de escolher qualquer opção ou alternativa em qualquer circunstância. Antes, ela é a capacidade da criatura de escolher entre as diferentes opções que as circunstâncias apresentem. Alguns também gostam de acrescentar a essas opções a “liberdade de se abster”, ou seja, a capacidade de não realizar escolha alguma diante das que são apresentadas. O termo livre-arbítrio é tomado com ressalvas pois, para o Molinista, a capacidade de escolha da criatura se apresenta apenas em momentos chaves, também chamados de momentos definidores. Um exemplo claro disso é como um drogado perde sua capacidade de escolher não usar drogas. Sua liberdade de escolha, para essa situação, deixou de existir pois em algum momento do passado ele fez uma escolha que o privou de sua própria liberdade de escolha posterior. É importante notar que estamos falando de escolhas gerais humanas e escolhas morais (matar ou não matar, por exemplo), mas não necessariamente de escolhas espirituais (resistibilidade da Graça, por exemplo). Molinistas se diferem bastante em relação as suas visões sobre soteriologia, havendo tanto Molinistas monergistas como sinergistas.

Voltando ao artigo, obviamente que o conhecimento divino é logicamente anterior ao seu decreto. Uma noção sadia de asseidade divina deve incluir o conhecimento como anterior ao decreto criativo, caso contrário teremos problemas sérios na Soberania Divina. (veja meu brevíssimo artigo sobre isso: O conhecimento médio como componente fundamental da soberania divina).

As objeções que seguem no artigo se baseiam, principalmente, no conceito de “Simplicidade Divina”. Qualquer molinista poderia evitá-las por completo ao dizer simplesmente que rejeita o conceito de “simplicidade divina”. De fato, eu mesmo rejeito qualquer noção do tipo pois, primeiramente ela não tem evidência bíblica, segundo pois ela apresenta uma série de problemas filosóficos extremamente difíceis de serem conciliados com crenças básicas do cristianismo. A própria noção de “Deus Triuno” é um forte argumento contra a “simplicidade divina”. A dupla natureza de Cristo também argumenta contra esse conceito. A “simplicidade de Deus” também implica que Deus não possui qualquer característica ou propriedade acidental, o que me parece falso. Coisas como o “a auto-entrega à morte por Amor” feitas por Cristo (que é Deus) são acidentais visto que só existem dentro da possibilidade de um mundo onde existisse o pecado (ou seja, se Deus criasse um mundo sem pecadores ele não teria “amor auto-entregue e incondicional” por qualquer homem ou mulher). William Lane Craig aborda muito bem esse tema em seu site (em inglês): http://www.reasonablefaith.org/divine-simplicity

Mas, ainda mais importante é notar que o conceito de simplicidade divina, ao menos da maneira que é defendido atualmente por alguns teólogos, não é inerente ao cristianismo e só toma forma – de fato – com a teologia de Tomás de Aquino.

A Simplicidade de Deus exige a independência ontológica de Seu conhecimento:

O Teísmo clássico e o Cristianismo histórico entendem Deus como uma unidade absolutamente simples não composta por quaisquer partes, desse modo os atributos de Deus devem ser vistos sobre o prisma da simplicidade (não-composição) da essência divina. O argumento a favor da simplicidade de Deus pode ser colocado da seguinte forma:

“(i) Existe uma multiplicidade de seres.
(ii) Os seres finitos se diferenciam quando suas potencialidades são atualizadas.
(iii) Mas nenhuma potencialidade é capaz de atualizar por si própria.
(iv) Logo precisa haver algo que é Pura Atualidade.
(v) Seres simples não são compostos de nenhuma forma ou matéria para se diferenciar.
(vi) Não há multiplicidade se não há diferença.
(vii) Portanto só existe um Ser Simples (Deus).”

O argumento parece reduzir a simplicidade divina a uma “ausência de matéria” quando na verdade o argumento para a simplicidade é baseado em uma noção de indivisibilidade de Deus, ou seja, Deus não pode ser dividido (de acordo com esse pensamento) em partes diferentes de si mesmo. Veja que o Molinismo em si não viola qualquer noção de simplicidade divina (ainda que ele também não a afirme diretamente), isso porque o Molinismo não entende o Conhecimento Médio como meramente uma propriedade de Deus. De fato, Molinistas como Craig negam a própria existência real de propriedades, reduzindo a questão de “propriedades” a uma mera questão linguística. É como falar que o formato redondo é uma propriedade da bola, ou que o Hemisfério Norte fica no Norte. São divisões que fazemos meramente em nossas cabeças de forma a ordenar o pensamento sobre algo. Não existe algo como um hemisfério norte real, esse é somente uma definição que damos a uma porção arbitrária do planeta Terra. Nesse mesmo raciocínio, falar que onisciência é uma propriedade de Deus não é afirmar que a onisciência possa existir antes ou depois, ou independente, de qualquer outro atributo divino. O molinismo, por exemplo, afirma indiretamente que a Vontade Divina e o Conhecimento Médio existem, desde a eternidade, simultaneamente. Caso não fosse assim, não haveria Conhecimento Médio pois este deriva da Vontade de Deus de criar seres livres. Se Deus não desejasse criar seres livres não haveria Conhecimento Médio.

Portanto, o argumento não é uma representação fiel do argumento para simplicidade divina. O argumento mais tradicional segue abaixo:

i. Deus não é distinto de Sua natureza.
ii. As propriedades de Deus não são distintas umas das outras.
iii. A natureza de Deus não é distinta de Sua existência.
iv. Deus não possui propriedades distintas de Sua natureza.

Veja que, mesmo sendo mais robusto que o argumento do artigo, a noção “clássica” de simplicidade divina apresenta inúmeros problemas, sendo o maior deles o ponto (ii), que diz que “as propriedades de Deus não são distintas umas das outras”. Fica muito difícil afirmar que a existência de Deus (que é uma propriedade no sentido semântico) não seja distinta de sua Onisciência (por exemplo).

Isso significa que Deus é idêntico a cada um de seus atributos. Ele não tem Sabedoria, Ele É a Sabedoria. Essa identidade faz com que todos os atributos possam qualificar um ao outro, visto que eles não são “partes” que formam um conjunto de propriedades, mas são designações que se referem a uma e a mesma essência indivisível da deidade. Assim, se Deus é Infinito e se Deus é Sabedoria, Deus é Sabedoria Infinita e a Infinita Sabedoria, daí dizermos que Ele é Onisciente. Outro exemplo, se Deus é Santidade e se Deus é Amor, então Deus é Santidade Amorosa e Amor Santo. Assim, por causa da simplicidade e pura realidade de Deus, seus atributos são perfeitamente coordenados.

Aqui temos puramente um jogo de palavras. Poderíamos usar a mesma lógica e afirmar: Deus é Infinito e Deus é Misericordioso, portanto Deus é Infinita Misericórdia e, portanto, o Universalismo é verdadeiro (isto é, todos são salvos). Veja que não existe sequer a preocupação de definir questões como Infinito e Misericórdia de forma que “Infinita Misericórdia” pode significar qualquer coisa.

Podemos agora argumentar assim: (1) Deus é um Ser Independente (2) Deus é Conhecimento (3) Logo Deus é Conhecimento Independente. Os molinistas têm um sério problema diante deles, que é o de explicar como o conhecimento divino pode ser a base das ações de Deus se esse conhecimento, por ser infinito, já precisa incluir o controle providencial da Divindade.[5] O conhecimento de Deus não pode depender de nada fora de Si mesmo, pois a simplicidade da essência divina exige que o conhecimento da Deidade seja independente:

“… há o problema da independência ontológica destes mundos possíveis. Se as ações das criaturas nestes mundos são autônomas…, então estes mundos possíveis são o que eles são por causa da atividade criativa das criaturas e não de Deus. É como se Deus, ao criar, fosse numa loja de mundos possíveis e, olhando as estantes, tivesse encontrado um mundo de que gostava, e a partir daí o tornasse real. Mas esses mundos possíveis, de onde vieram? Não são criados por Deus, mesmo como ideias, mas existem como possibilidades independentes de Deus, como se fossem ideias platônicas.” 

“O Conhecimento de Deus não depende de nada fora de Si mesmo”. Eu não poderia concordar mais. De fato, não existe UM molinista sequer que negue a verdade dessa sentença. Fato é que o Conhecimento Médio, isto é o Conhecimento das contrafactuais de criaturas livres, não existe fora de Deus. Ele é um conhecimento sobre como as criaturas livres agiriam em qualquer situação. Esse conhecimento é inteiramente dependente de Deus pois ele se baseia em duas coisas: (1) Nas criaturas livres e; (2) Nas situações onde elas se encontram. O que acontece é que tanto as criaturas quanto os “mundo possíveis” (que são as situações) são inteiramente criados por Deus de acordo com a vontade dEle. É Deus que possibilita o Conhecimento Médio ao decidir criar um mundo com criaturas livres. Portanto, os “mundos possíveis” são ideias existentes desde a eternidade dentro da mente de Deus.

Não obstante, o cerne do problema no molinismo é o seu comprometimento com o libertarianismo libertário, de modo que a metafísica molinista presume uma concepção indeterminista de liberdade quanto a sua realização [9]. Toda teoria metafísica precisa lidar com o problema “determinismo versus indeterminismo” que é uma das questões decorrentes do problema maior do uno e do múltiplo. Ao assumir um conceito libertário de livre-escolha, o molinismo prioriza mais o indeterminismo (múltiplo) do que o determinismo (uno).

Uma análise superficial do Molinismo pode trazer a impressão de que ele assume e lida com o indeterminismo (isto é, a incerteza das escolhas humanas), mas uma olhada mais demorada sobre o tema demostra que o Molinismo assume justamente o contrário. A própria ideia de Conhecimento Médio assume que Deus conhece precisamente o que cada ser humano irá escolher em cada circunstância possível. Não existe chance para erro, Deus conhece efetivamente cada escolha humana e ordena o mundo onde as escolhas livres já foram contidas em Sua providência. O Molinismo é justamente rejeitado por muitos por ser altamente determinista em sua concepção e providência. O equívoco aqui é confundir indeterminismo de propósito (ou seja, porque uma pessoa escolhe de determinada maneira) e indeterminismo de resultados (o que ela irá escolher). Embora o Molinismo não responda a pergunta do “porque escolhemos x e não y?” ele pode assegurar que, independente do motivo, Deus conhece se escolheremos x ou y.

O restante do artigo caminha para uma afirmação enfática da simplicidade divina, não cabendo nenhum outro comentário específico. O que precisamos lembrar é que o Conhecimento Médio não existe fora de Deus mas, ao contrário, ele existe dentro da mente de Deus como possibilidades de criação que Deus possui. Rejeitar o Conhecimento Médio é dizer que o mundo que Deus criou era o único mundo possível de ser criado. Nesse caso Deus cria por necessidade e não por Vontade Soberana. O Molinismo é, em uma análise final, a visão que afirma de maneira mais enfática e satisfatória a Soberania total de Deus, ao mesmo tempo que coloca os homens como genuinamente livres em suas escolhas.

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O conhecimento médio como componente fundamental da soberania divina

Como Deus mantém controle sobre todas as coisas?

Essa é a pergunta básica que qualquer pessoa que acredita em soberania divina deve responder. A soberania divina, isto é, o controle que Deus exerce sobre todos os aspectos e eventos do nosso mundo, é um dos pontos principais do que chamamos de Providência. É a Providência de Deus que permite que Ele – por exemplo – cumpra as promessas que nos foram feitas a respeito do Messias (e de sua segunda vinda). Se a Providência não existe, então Deus não tem controle sobre o desenrolar dos acontecimentos e se ele não tem esse controle, então ele não é Onipotente e Soberano. Como poderíamos confiar em um Deus que não tem esse controle?

Afirmar a soberania divina é fundamental para qualquer visão minimamente saudável de cristianismo. É esse controle que Deus tem das coisas que nos faz suportar os sofrimentos presentes pela expectativa da glória futura. Nós cristãos somos, portanto, criaturas que vivem pela esperança e pela fé. (2 Cor. 5:7). Vivemos por aquilo que ainda não aconteceu ou existe, mas que temos certeza que irá acontecer e que irá existir (porque assim Deus nos prometeu).

Deus então deve ter uma maneira de manter controle sobre todos os aspectos do mundo. Não iremos neste momento abordar a tensão que existe entre nossa liberdade e a providência de Deus. Vamos focar no mundo criado e no tipo de conhecimento que Deus possui dele.

Já vimos que o Molinismo define a onisciência de Deus através de três momentos lógicos (ou três tipos de conhecimento). O primeiro deles, o Conhecimento Natural, é o conhecimento que Deus possui de todas as verdades necessárias (ex.: 2+2=4, Deus existe, se algo é redondo então não pode ser quadrado e etc.). O segundo conhecimento, chamado de Médio, é o conhecimento que Deus possui do que poderia ser (ex.: como seria um mundo com criaturas livres, como seria um mundo onde somente existem quinhentas pessoas e etc). O terceiro conhecimento, chamado de Livre, é o conhecimento total do que de fato foi criado e existe.

Vemos então que de infinitas possibilidades, Deus escolheu criar o mundo da maneira que criou, e isso foi uma escolha soberana (ou seja, Deus não foi forçado a criar o mundo desta maneira. Ele poderia, por exemplo, nem mesmo ter criado qualquer mundo). Mas uma característica do mundo que Deus criou é que nesse mundo a Vontade de Deus é plenamente realizada. (Jó 42:2). Deus precisa então conhecer em quais dos mundos possíveis de serem criados a Sua Vontade seria realizada. Era da Vontade de Deus que Cristo morresse por nossos pecados, portanto um mundo onde Cristo não morresse por nossos pecados (por qualquer motivo que fosse) seria um mundo onde a Vontade de Deus não seria realizada.

O Conhecimento Médio é justamente o conhecimento que Deus possui de quais mundos atenderiam ao critério de realizar a Sua Vontade. A negação da existência do Conhecimento Médio implica na redução do conhecimento de Deus a somente seus conhecimentos natural e livre. Desta maneira, Deus não teria como planejar o mundo antes de criá-lo. Se o mundo é contingente e o Conhecimento Livre diz respeito apenas ao mundo de fato criado, então Deus não teve como planejar o que foi criado e pode apenas esperar que as coisas aconteçam como Ele deseja.

A noção de Conhecimento Médio é, portanto, fundamental ao conceito de soberania divina.

Agora, alguém pode afirmar que Deus teve como planejar o mundo e ainda assim negar o Conhecimento Médio. Como o conhecimento livre é o conhecimento do que de fato veio a existência, muitos vão apelar e dizer que o planejamento do universo se deu no Conhecimento Natural de Deus.

Isto é uma armadilha.

Assumir que o planejamento do universo se deu no Conhecimento Natural de Deus (conhecimento das verdades necessárias) é o mesmo que dizer que todas as informações e eventos do mundo que foi criado são verdades necessárias e – portanto – Deus não tinha a opção de criar um mundo diferente do atual. O mundo deixa de ser contingente e passa a ser necessário. Deus não mais cria o mundo por que quer, mas cria por necessidade.

A soberania de Deus e sua asseidade são, então, perdidas.

Quem foi Luis de Molina?

13226879_10201693576136733_8954656384819041028_nLuis de Molina nasceu em Setembro de 1535, durante o reinado de Carlos V na Espanha. Pouco se sabe sobre seus pais. Molina testemunhou a conquista espanhola da América do Sul e Central e o despontar da Espanha como um enorme império colonial que se estendia por boa parte do globo. Apesar de espanhol, Molina passou a maior parte de sua vida adulta em Portugal.

Após quatro anos estudando Latim em Cuenca, ele foi para a universidade de Salamanca estudar direito e após isso passou os anos seguintes estudando lógica na faculdade de Alcalá. Em Alcalá Molina entra em contato pela primeira vez com a Sociedade de Jesus (fundada em 1540). Após ser admitido na Sociedade, ele é enviado para Coimbra em Agosto de 1553 para dar início ao seu noviciado. Molina frequentou um curso completo de filosofia entre 1554 e 1558. Naturalmente, um curso completo de filosofia significava um curso completo em Aristóteles. Durante o curso, Molina se sobressaia em lógica e metafísica, campos que seriam seu principal foco. Após formado, ele iniciou seus estudos de teologia na faculdade pública de Coimbra e foi ordenado padre em 1561.

Sua carreira acadêmica já havia começado durante seus estudos de teologia. No começo ele lecionava filosofia ocasionalmente em Coimbra e posteriormente chegou a ser substituto na cadeira de teologia da Universidade de Évora. De 1563 até 1567 ele lecionou seu próprio curso de filosofia na Faculdade Jesuíta de Coimbra. De 1568 até 1583 Molina lecionou teologia na Universidade de Évora, que havia sido dada aos jesuítas em 1559. Lá ele lecionou sobre a Summa Theologiae de Tomás de Aquino. Suas palestras sobre a Prima Pars e a Secunda Secundae compreendiam a base de sua obra Commentaria in Primam Divi Thomae Partem, publicada em Cuenca em 1592, cujos alguns trechos primeiro faziam parte da Concordia (1588), e posteriormente nos seis volumes do De Iustitia et Iure (1593-1613).

A parte mais produtiva e criativa de suas obras de teologia e filosofia se deu justamente durante os quinze anos que esteve em Évora, enquanto o resto de sua vida foi consumida na luta para publicar suas obras e na defesa de sua Concordia. Após uma briga com o chanceler da Universidade de Évora Molina se muda para Lisboa em algum momento entre 1584 e 1586, onde ele permaneceu até retornar para sua cidade natal em 1591. De volta a Cuenca, ele consegue publicar seus comentários sobre a Prima Pars e os primeiros três volumes do De Iustitia, assim como retrabalhar a Concordia para uma segunda edição. Ele deixa Cuenca em Abril de 1600 para assumir a recém criada cadeira de Teologia Moral na Faculdade de Madrid, onde ele morre de disenteria em outubro do mesmo ano.

Principais obras:

  • Comentários sobre o Órganon e Ética de Aristóteles (sem data certa, supostamente enquanto esteve pela primeira vez em Évora)
  • Concordia liberi arbitrii: cum gratiae donis, diuina praescientia, prouidentia, praedestinatione, et reprobatione [Concórdia do livre-arbítrio com os dons da graça e com a presciência, providência, predestinação e reprovação divinas] (1588)
  • Commentaria in primam divi Thomae Partem [Comentário da Primeira Parte da Suma Teológica de Tomás de Aquino] (1592)
  • De iustitia et iure [Da justiça e do Direito] (1593-1613)

O que é Libertarianismo Moderado?

Quando falamos de liberdade humana, podemos identificar quatro correntes de pensamento: determinismo rígido, determinismo moderado, libertarianismo rígido e libertarianismo moderado. A primeira posição defende que o livre-arbítrio é ilusório e que todas as ações são determinadas por condições anteriores dos eventos, sejam eles causados pelo meio natural (ateísmo) ou por Deus (teísmo). A segunda visão, também chamada de compatibilismo, defende que o determinismo e o livre-arbítrio podem ser conciliados (geralmente apelando para uma redefinição do termo livre-arbítrio). A terceira visão defende simplesmente que o ser humano possui livre-arbítrio em toda e qualquer situação. E é sobre a quarta visão – o libertarianismo moderado (ou suave) – que iremos falar.

Essa posição afirma que o ser humano possui livre-arbítrio em determinados momentos. Mas, mais que isso, essa posição traz uma noção crucial de que nossas ações atuais impactam a forma como iremos agir no futuro. Dessa forma, o pecado cometido hoje afeta minha capacidade de não-pecar no futuro. Podemos entender isso usando a analogia de um leque de ações. A cada decisão tomada o leque se abre mais ou se fecha mais e as possibilidades de ações futuras podem aumentar ou diminuir. Isso é o mesmo que dizer que nossas ações são determinadas pelo nosso caráter, mas também que nosso caráter é determinado pelo conjunto de nossas ações.

Conforme afirma o teólogo Kenneth Keathley:

“Dizer que nossos hábitos decidem nossas respostas para determinadas situações pode soar muito determinista, e este fato é a razão para muitos calvinistas abraçarem o determinismo causal. Mas meus hábitos são o resultado de escolhas livres anteriores. Isso significa que nossas escolhas e nossas disposições para agir interagem em uma via de mão dupla. Isso também significa que tanto o mero determinismo, quanto o mero libertarianismo são muito simplistas”

Isso pode soar estranho no princípio, mas esse modelo é o que apresenta maior evidência bíblica (conforme veremos mais abaixo) e é aquele que melhor explica algumas questões importantes a respeito da ação do Espírito Santo na vida dos crentes: “porque o cristão continua a pecar depois de se converter?

Para responder essa questão temos que analisar com maior cuidado o que a Bíblia nos diz sobre isso. Três pontos podem então ser destacados na Palavra de Deus:

1- A habilidade de superar o pecado está realmente disponível para os crentes. (João 8:36; Romanos 6:6-14; 1 Coríntios 10:13)

2- Cristãos ainda retém a capacidade de pecar. (1 João 1:8 até 2:2)

3- A graça de Deus recebe todo crédito pelo bem que os cristãos praticam enquanto ao cristão fica toda a responsabilidade e culpa por seus pecados. (João 15:5; 1 Coríntios 15:10; 2 Coríntios 3:5; Filipenses 2:12-13).

Mas como isso ocorre?

A liberdade humana pode ser entendida de duas maneiras: como uma permissão e como uma habilidade. Como uma permissão, a liberdade é um privilegio ou um direito de escolher. Esse é o caso da liberdade em escolher o seu cônjuge (1 Coríntios 7:39). Veja que se trata da liberdade de poder agir, mas isso não implica necessariamente em agir. A pessoa pode, por exemplo, escolher não se casar. Mas a liberdade de permissão implica justamente na existência da liberdade como habilidade. Eu não sou livre só por ter opções, mas sou livre exatamente por poder efetivamente escolher uma das opções. É o potencial de racionalizar as escolhas que me torna livre.

Como uma habilidade, a Bíblia nos ensina que existem dois tipos de liberdade: liberdade de responsabilidade e liberdade de integridade.

Liberdade de responsabilidade é a habilidade de ser a origem de sua própria decisão, escolha ou ação. Por sermos a própria origem de nossas ações é que somos responsáveis pela natureza moral dessa ação e de suas consequências. Quando alguma situação surge diante de nós e precisa de uma decisão nossa, a liberdade de responsabilidade é a nossa habilidade de dar uma resposta a ela.

Imagine a seguinte situação:

Um grupo de amigos está em um barco no meio do oceano quando de repente um deles cai do barco. Ele está se afogando e pede ajuda de seus amigos. Aqueles amigos que sabem nadar tem um nível de responsabilidade diferente daqueles que porventura não sabem nadar e que, por isso, não fazem nada para salvar seu amigo.

Esse exemplo nos traz a noção de Liberdade de Integridade.

Liberdade de Integridade é a capacidade de agir de uma forma que é consistente com o que uma pessoa sabe ser a coisa certa a fazer. Isto quer dizer que é a liberdade de uma pessoa ser o tipo de pessoa que ela deseja ser. É a capacidade de traduzir os nossos valores em atos. Essa liberdade portanto depende de uma análise da identidade pessoal de cada um e é justamente nisso que conceitos de “idade de responsabilidade” se baseiam. Nesse caso, afirma-se que uma criança deve alcançar um determinado ponto de desenvolvimento mental, emocional e espiritual antes de ser considerada moralmente responsável por seus atos.

Liberdade de Integridade também apela para o conflito que existe entre nossos valores e nossos desejos. A incapacidade de viver de acordo com os valores que acreditamos causa incomodo em nossas consciências. A falta de integridade, portanto, é agir de maneira que você próprio considere indesejável. Isso torna a noção de auto-disciplina e domínio próprio em um profundo conceito de liberdade.

Portanto quando nos deparamos com questões cruciais, onde nossa integridade moral é posta à prova, temos a oportunidade de moldar nossas escolhas futuras. Essas questões cruciais trazem a incerteza de nossa escolha pois nossa vontade está dividida por desejos conflitantes. Entretanto, essas decisões afetam quem nós somos como pessoas, então decisões similares no futuro podem não produzir mais o mesmo conflito. É o caso de pessoas que – através de ajuda – conseguem superar um ímpeto inicial de usar drogas. A cada vez que elas resistem a vontade de consumir drogas, a decisão futura de não usar drogas se torna mais fácil. De fato, o momento onde é mais fácil resistir ao uso de drogas é justamente antes de ter experimentado elas a primeira vez. De igual modo, a cada vez que a pessoa consome drogas, a decisão futura de não usar drogas se torna cada vez mais difícil. Obviamente, isso se aplica para qualquer pecado particular, seja ele a mentira, a traição, o orgulho e etc.

Agora, a consequência de se abusar de sua própria integridade, praticando aquilo que vai contra o que se sabe ser o correto, é chegar ao ponto de se ter liberdade suficiente para ser responsabilizado por seu atos, mas perder sua Liberdade de Integridade. A Bíblia ensina que todos tem Liberdade de responsabilidade moral, mas nem todos tem a liberdade de integridade. Em Romanos 7: 13-23, o Apóstolo Paulo demostra a condição de ser moralmente responsável por seus atos, mas não ter integridade moral:

“Logo tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum; mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem; a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno.
Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado.
Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço.
E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa.
De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim.
Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem.
Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço.
Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim.
Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo.
Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus;
Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros.”

A perda da integridade moral ainda mantém a pessoa moralmente responsável por seus atos, mesmo que ela não tenha mais capacidade de escolher agir de forma diferente. Na realidade, no que tange a nossa capacidade de obedecer a Deus, esse é exatamente o estado que cada perdido fora da Graça de Deus se encontra.

O papel da Graça Divina é justamente reabilitar o ser humano a recuperar sua Liberdade de Integridade, capacitando ele a viver de acordo com a nova mentalidade que Cristo criou nele. A santificação progressiva do crente e o seu crescimento na Graça devem ser entendidos, portanto, como uma restauração da liberdade de integridade. A santificação é a restauração da nossa capacidade de trazer nossas vidas à conformação da vontade de Deus. Esta é a verdadeira liberdade: a habilidade de viver uma vida que agrade a Deus. Portanto, a graça restaura não somente a habilidade de reconhecer a vontade de Deus, mas de efetivamente cumpri-la. Mas assim como a perda da integridade moral não é instantânea (pelo contrário, nós a perdemos de pouco em pouco conforme vamos tomando decisões), a recuperação dessa integridade também é gradativa e condicionada a nossas escolhas.

Por esse motivo, cristãos continuam a pecar mesmo após convertidos. Somente nos céus, diante de nosso Deus, é que teremos nossa liberdade de Integridade plenamente restaurada e que seremos capazes de – mesmo livres – não pecarmos mais.


Para se aprofundar nesse tema, recomenda-se o capítulo três do livro “Salvation & Sovereignty: A Molinist Approach” de Kenneth Keathley.

O que é Livre-Arbítrio Libertário?

Dentro do conceito de Conhecimento Médio temos alguns pilares fundamentais ao Molinismo. O primeiro deles, conforme a própria definição do Conhecimento Médio, é a ideia de que Deus conhece as contrafactuais de criaturas livres antes de criar o mundo. O segundo deles, que segue o primeiro ponto, é o conceito de que Deus criou criaturas livres e moralmente responsáveis, conceito esse que pode ser chamado de “livre-arbítrio libertário”.

Mas o que vem a ser Livre-Arbítrio Libertário?

De uma forma resumida, possuir liberdade libertária (também chamada de livre-arbítrio) é ter a capacidade de, em determinada situação, fazer (A) ou não fazer (A). Ou seja, ter a possibilidade real de realizar uma coisa ou se abster de realizá-la.

Nesse sentido, quando alguém faz algo, o defensor do livre-arbítrio afirma que aquela pessoa teve a real liberdade de não fazer aquele algo caso desejasse. Em última instância, a responsabilidade dos atos de qualquer agente livre (homens e criaturas espirituais) repousa sobre o próprio indivíduo.

Segundo Molina, “O agente chamado de livre é aquele que, uma vez postulados todos os pré-requisitos para agir, é capaz de agir ou não agir, ou é capaz de fazer determinada coisa de modo tal que também seja capaz de fazer algo contrário.

Mas isso nos traz algumas perguntas e a primeira delas é com relação a algo chamado “relação causal”. Poderia o próprio indivíduo ser o autor de sua decisões? Isso não colocaria a autoridade de Deus “em xeque”? Deus, sob essa ótica, não seria um mero expectador dos acontecimentos do mundo?

Para começarmos a entender isso, primeiro precisamos compreender que as escolhas dos indivíduos – embora sejam livres – não são infinitas. Suas escolhas estão limitadas (mas não determinadas) por uma série de fatores. Por exemplo, um garoto pobre não pode genuinamente escolher almoçar caviar todos os dias. Da mesma forma, eu não posso nesse momento escolher redigir esse texto em alemão (já que não sou fluente em alemão). Ou seja, nossa escolha é livre, mas não é ilimitada. O ambiente, sua personalidade, o estado passado das coisas, os outros indivíduos, tudo isso age em nossa escolhas, limitando ou ampliando o leque de opções.

Dito isto, onde Deus entra na equação? Se somos livres nas escolhas, como Deus permanece soberano?

A resposta para o molinista é: Conhecimento Médio.

Proponentes atuais do Molinismo (como Craig e Plantinga) não definem mais livre-arbítrio como a capacidade de realizar (A) ou abster-se de realizar (A). Craig adota um visão onde a vontade livre é a vontade incausada, ainda que a pessoa não tenha a opção de realizar o contrário:

Suponha, por exemplo, que se Deus soubesse que Pôncio Pilatos não enviaria Jesus para a cruz, Ele não teria colocado Pilatos em tais circunstâncias. Nesse caso, Pilatos não tinha, nas circunstâncias, a capacidade de deixar Jesus solto. No entanto, ele livremente enviou Jesus à cruz, uma vez que nada o determinou a fazê-lo.

Isto sugere que o que é fundamental para o livre-arbítrio não é a capacidade de escolher de forma diferente em circunstâncias idênticas, mas não ser causado a fazer algo por causas além de si mesmo. Cabe a mim como eu escolho, e nada determina a minha escolha. Às vezes, os filósofos chamam isto de causalidade do agente. O próprio agente é a causa de suas ações. Suas decisões são diferenciadas dos eventos aleatórios por que está sendo feito pelo próprio agente, por razões que o agente tem em mente.

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Antes da fundação do mundo, Deus conhecia toda a infinidade de mundos possíveis de serem criados e também sabia em quais deste mundos o ser humano realizaria livremente os propósitos de Deus. Dessa forma, o mundo que Deus de fato criou é aquele em que os propósitos dele se cumprem, apesar da liberdade humana. Luís de Molina usa como síntese a seguinte frase:

A pessoa humana é um agente ativo da Vontade Divina

Deus não só realiza seu propósito apesar de sermos livres, Deus vai além, e realiza seu propósito usando nossas livres decisões (que ele conhece de antemão).

O que é Conhecimento Médio?

O principal ponto do Molinismo, isso é – o que o distingue do Calvinismo e Arminianismo – é o conceito de que Deus possui “Conhecimento Médio”. Mas o que seria isso?

Para Luis de Molina, o conhecimento médio de Deus é um dos três tipos inatos de conhecimento do qual Deus dispõe. Os três seguem abaixo:

1- Conhecimento Natural
É o conhecimento de todas as possibilidades e de tudo aquilo que é logicamente plausível. Neste tipo de conhecimento Deus sabe quais possíveis mundo pode criar e quais não poderia (por exemplo, seria impossível para Deus criar um mundo onde Ele próprio não existisse).

2- Conhecimento Médio
É o conhecimento de como uma criatura livre (liberdade libertária) agiria livremente em qualquer situação. (também chamado de conhecimento de contrafactuais). Nesse tipo de conhecimento, Deus sabe como qualquer ser criado agiria diante de qualquer conjunto de circunstâncias. Ele sabe se você livremente vai querer casquinha de baunilha ou de chocolate amanhã, sabe se você livremente aceitaria a Cristo se o tivesse visto na Palestina (como os Apóstolos viram) e etc. Entretanto, uma distinção deve ser feita aqui. Para que um conhecimento seja Médio ele deve estar localizado antes do conhecimento Livre (ver abaixo), ou seja, Deus deve conhecer as contrafactuais ANTES de criar o mundo.

Alguns Calvinistas aceitam a ideia de que Deus conhece as contrafactuais, mas eles afirmam que esse conhecimento vem após Ele criar o mundo. Portanto, o que difere a visão Calvinista das contrafactuais da visão Molinista é que, para o Molinista, as contrafactuais são conhecidas ANTES da criação e são parte fundamental de como Deus planejou todas as coisas.

3- Conhecimento Livre
É o conhecimento do que de fato irá acontecer.

* É importante notar que esse três “momentos” não são momentos cronológicos, mas sim uma sequência lógica. Não existe um momento no tempo onde Deus possui um conhecimento médio mas não um conhecimento livre. Da mesma forma, não existe nenhum momento onde Deus não possua os três tipos de conhecimento.

É possível pensar nesses momentos em três termos simples: “poderia”, “faria” e “fará”.

  • Poderia (conhecimento natural)

Deus conhece todas as constantes do universo, mas não só isso. Deus conhece a si mesmo e conhece todas as possibilidades de criação (mundos possíveis). Deus sabe quais as condições necessárias para que o universo que ele crie possua vida e etc.

Agora vamos pular para o terceiro momento.

  • Fará (Conhecimento Livre)

Deus conhece o mundo. Não os mundos possíveis, mas o mundo que de fato foi criado. Ele é chamado de “Conhecimento Livre” porque é o resultado da escolha livre e soberana que Deus teve de criar este mundo (e não qualquer outra possibilidade de mundo).

Deus, sem ser compelido ou sob qualquer compulsão, escolheu criar este mundo, onde existem “Agentes Morais Livres” (seres humanos e criaturas sobrenaturais como anjos), que fazem escolham genuinamente livres (isso é, não são escolhas determinadas por agentes externos, nem muito menos por agentes internos como personalidade).

Agora, como Deus consegue infalivelmente realizar os seus propósitos e Sua vontade em um mundo onde outros Agentes Morais existem além dele?

Isso traz a noção crucial de Conhecimento Médio.

  • Faria (Conhecimento Médio)

Vimos que em seu conhecimento natural, Deus conhece todas as possibilidades e todos os “mundos possíveis” de serem criados (que são, literalmente, infinitos). Dentro dessas possibilidade, existe um conjunto infinito de mundos onde a Sua vontade soberana seria realizada. Esse conhecimento de mundo viáveis onde Sua vontade é realiza é “localizado” (figura de linguagem) entre seu “conhecimento natural” e seu “conhecimento livre”, por isso o termo “conhecimento médio”.

Esse conhecimento das escolhas e decisões que as criaturas livremente fariam quando colocadas em uma determinada situação permite que Deus crie um mundo onde as pessoas livremente realizam a vontade dEle, cumprindo seus propósitos – apesar de existirem outros agentes livres além de Deus.

Dessa forma, tanto a soberania de Deus, quanto a liberdade genuína dos homens são preservadas e coexistem. Tornando Deus legitimamente soberano sobre cada aspecto da criação, e tornando os homens genuinamente responsáveis por suas ações, inocentando Deus da autoria do pecado.

O Conhecimento Médio possui amparo bíblico?

Sim.

Embora exista margem para se questionar uma ou outra interpretação, não existe margem alguma para se questionar o suporte bíblico geral para o Conhecimento Médio.

Exemplos claros de Contrafactuais na Bíblia são as passagens onde Deus declara ao seu povo o que aconteceria caso obedecessem e caso não obedecessem. Além dessas, existem passagens do Novo Testamento onde Jesus claramente indica situações que poderiam acontecer caso se cumprissem determinadas condições, mas que de fato não aconteceram porque as pessoas não cumpriram as condições especificadas (em alguns casos se tratam, por exemplo, de profecias condicionais)

Exemplos:

Em verdade o Filho do homem vai, como acerca dele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não houvera nascido.
Mateus 26:24

Se eu não viera, nem lhes houvera falado, não teriam pecado, mas agora não têm desculpa do seu pecado.
Aquele que me odeia, odeia também a meu Pai.
Se eu entre eles não fizesse tais obras, quais nenhum outro tem feito, não teriam pecado; mas agora, viram-nas e me odiaram a mim e a meu Pai.
João 15:22-24

Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui.
João 18:36

A qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória.
1 Coríntios 2:8

Então Jeremias disse a Zedequias: Assim diz o SENHOR, Deus dos Exércitos, Deus de Israel: Se voluntariamente saíres aos príncipes do rei de babilônia, então viverá a tua alma, e esta cidade não se queimará a fogo, e viverás tu e a tua casa.
Mas, se não saíres aos príncipes do rei de babilônia, então será entregue esta cidade na mão dos caldeus, e queimá-la-ão a fogo, e tu não escaparás da mão deles.
E disse o rei Zedequias a Jeremias: Receio-me dos judeus, que se passaram para os caldeus; que estes me entreguem na mão deles, e escarneçam de mim.
E disse Jeremias: Não te entregarão; ouve, peço-te, a voz do Senhor, conforme a qual eu te falo; e bem te irá, e viverá a tua alma.
Mas, se tu não quiseres sair, esta é a palavra que me mostrou o Senhor:
Eis que todas as mulheres que ficaram na casa do rei de Judá serão levadas aos príncipes do rei de babilônia, e elas mesmas dirão: Teus pacificadores te incitaram e prevaleceram contra ti, mas agora que se atolaram os teus pés na lama, voltaram atrás.
Assim que a todas as tuas mulheres e a teus filhos levarão aos caldeus, e nem tu escaparás da sua mão, antes pela mão do rei de babilônia serás preso, e esta cidade será queimada a fogo.
Então disse Zedequias a Jeremias: Ninguém saiba estas palavras, e não morrerás.
Jeremias 38:17-24

Existem ainda muitas outras passagens bíblicas

É importante ter em mente que Luis de Molina desenvolveu sua doutrina do conhecimento médio divino, ou o que é referido como molinismo hoje, em resposta às visões fortes de predestinação dos Reformadores Protestantes, como Lutero e Calvino. Ele queria enunciar um doutrina extremamente forte da soberania divina, a fim de atender as demandas teológicas dos reformadores, que tinha a vantagem de afirmar também a realidade do livre arbítrio humano. Pessoas que não gostam da forte afirmação da soberania divina dos reformadores estão, portanto, aptos a não gostar também das visões de Molina. Mas Molina, assim como os reformadores, tomou a sério, goste você ou não, a afirmação bíblica da soberania de Deus sobre os assuntos dos homens.
– William Lane Craig

* Nota¹: Quando se fala “liberdade libertária” está se dizendo que é um tipo de ação que não está determinada por nenhum aspecto. É uma liberdade diferente da “liberdade” determinista (ou fatalista) presente em alguns aspectos do Calvinismo, onde o homem faz as escolhas por estar determinado pelos meios externos (situações) ou internos (personalidade determinada por Deus para cada pessoa). Para o Molinismo, a escolha humana entre (A) e (B) é realmente livre e não é determinada nem pelo meio externo, nem por Deus e nem pelo meio interno (personalidade, estado de humor e etc). Todo homem pode genuinamente escolher entre fazer (A) ou (Não-A).

O que é Molinismo?

O Molinismo é uma doutrina teológica e filosófica cristã que recebe seu nome do Padre Jesuíta Espanhol Luis de Molina (séc. XVI). Ela afirma tanto um controle meticuloso de Deus sobre todas as coisas existentes, como a total liberdade dos homens (livre-arbítrio). De uma maneira geral, podemos dizer que o Molinismo adere simultaneamente a uma visão de soberania divina muito próxima do Calvinismo e a um conceito de livre-arbítrio (chamado Libertarianismo) muito próximo do Arminianismo.

No molinismo, Deus mantém controle providencial de todas as coisas através de algo denominado como “conhecimento médio”. Deus conhece antes da fundação do mundo todas as escolhas livres que qualquer pessoa faria em qualquer situação. Desta forma Deus cria um mundo onde as pessoas livremente fazem à vontade de Deus.

No molinismo os seres humanos são agentes ativos da Vontade de Deus. Ele passa a exercer controle sobre todas as coisas não como causa primária, mas como ordenador do universo que foi criado e conhecedor de tudo que irá ocorrer.

Deus criou o mundo onde a sucessão de eventos e decisões humanas livres colaboram com a Sua Vontade, ainda que em uma análise primária pareça que não. O molinismo então passa a ser uma visão peculiar sobre como Deus planeja os acontecimentos futuros.

Um exemplo que podemos dar de como isso ocorre é o episódio da crucificação de Cristo. Era da vontade de Deus que Pilatos mandasse crucificar Jesus, mas Deus não interfere na decisão de Pilatos. Nessa situação, caso Pilatos não desejasse crucificar Jesus, então Deus poderia, por exemplo, não ter criado Pilatos ou agido com sua providência para que o governador da judeia naquele momento fosse outra pessoa.

Ou seja, Deus comanda o curso da história sem violar a vontade das criaturas criadas.

De acordo com o teólogo batista Kenneth Keathley:

O Molinismo ensina que Deus exerce Sua soberania primariamente através de sua onisciência, e que Ele infalivelmente conhece o que qualquer criatura livre faria em qualquer situação possível. Desta maneira Deus soberanamente controla todas as coisas enquanto os humanos são genuinamente livres. Deus é capaz de realizar Sua Vontade através do que os molinistas rotulam como Conhecimento Médio. Conhecimento Médio é um termo técnico que se refere primariamente ao infinito conhecimento de Deus do que criaturas livres e moralmente responsáveis fariam em qualquer situação possível.

Então o Molinismo formula um “compatibilismo” radical – uma visão “calvinista” da divina soberania e uma visão “arminiana” da liberdade humana – e por essa razão é frequentemente atacado por ambos os lados. Calvinistas como Bruce Ware e Richard Muller consideram o Molinismo como um tipo de Arminianismo, enquanto Roger Olsen e Robert Picirilli (ambos arminianos de carteirinha) rejeitam o Molinismo por ele ser muito calvinista. Entretanto, o Molinismo é atraente para muitos filósofos cristãos proeminentes de nosso tempo, como Alvin Plantinga, Thomas Flint e William Lane Craig. Uma das principais razões para isso é que ele demonstra que é logicamente possível afirmar a soberania divina e a liberdade humana de maneira consistente. Mesmo o teísta aberto William Hasker, que não é amistoso com o Molinismo, admite:

“Se você está comprometido com uma forte visão da providência, segundo a qual, até o mais ínfimo detalhe ‘as coisas são como são porque Deus conscientemente decidiu criar um mundo assim’ e ainda assim você também deseja manter uma concepção libertária do livre arbítrio – se é isso que você quer, então o Molinismo é a sua única opção”.

Na realidade, isto é exatamente o que eu desejo porque eu acredito que o Molinismo é fiel ao testemunho bíblico. O modelo molinista é a única opção para qualquer um que deseje afirmar uma visão elevada da soberania de Deus enquanto sustenta uma genuína definição das escolhas, liberdades e responsabilidades humanas. William Lane Craig vai ainda além ao descrever a noção molinista de conhecimento médio como “o conceito teológico mais frutífero e singular que eu já encontrei”. Quando aplicamos o Molinismo às incomodas questões da predestinação e eleição, as razões para seu entusiasmo se tornam evidentes.

KEATHLEY, Kenneth. Salvation and Sovereignty: A Molinist Approach. EUA: B&H Academic (1 de janeiro de 2010)

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